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..intro [MEIAC no ARCO 2001]

O projecto "des-juego/de-game" é a resposta ao desafio proposto por Antonio Franco Domínguez, director do Museo Extremeño e Iberoamericano de Arte Contemporáneo, para a presença do museu de Badajoz na feira de arte de Madrid de 1991.

Na continuidade da colaboração que venho prestando ao MEIAC no desenvolvimento da sua Galeria Virtual (o primeiro programa de arte digital criado num museu ibérico), "des-juego/de-game" surge como uma aposta forte num dos temas porventura mais actuais da arte digital: a relação entre arte, tecnologia computacional e jogos electrónicos

Convidei os JODI, a dupla formada por Joan Heemskerk e Dirk Paesmans para participar nesta iniciativa. Visitei-os em Barcelona, onde conversámos sobre o panorama artístico actual, incidindo nos artistas com projectos interessantes na área dos jogos. Mais tarde abordámos o estado actual da sua conhecida peça CTRL-SPACE e a estratégia a seguir na sua apresentação em Madrid: sala obscura, de costas voltadas para a multidão, no interior da qual 4 iMacs DV brancos ligados em rede através duma rede Airport, permitem a quatro espectadores/jogadores experimentar três níveis de des-construção do célebre jogo electrónico Quake. Creio que vai ser uma das grandes surpresas do ARCO 2001.

Mais tarde convidei ainda o artista catalão Joan Leandre e o artista mexicano Fran Ilich. O que une estas três presenças no espaço do MEIAC projectado para o ARCO é a sua relação ao mesmo tempo des-construtiva e paródica com o mundo dos jogos electrónicos.

Joan Leandre (i.e. retroYou) toma como massa digital a des-construir os simuladores de corridas de automóveis, operando transformações psicadélicas nos mundos digitais desenhados pelos criadores das plataformas originais. Como o próprio refere:

"[retroyou r/c Paradise] y [retroyou r/c Me]
son dos modificaciones realizadas para el proyecto serial de [estímulos retroYou]...

 

Pertenecen al modulo [Entretenimiento Paraiso] y son en realidad prototipos modificados de diversas plataformas tecnológicas dirigidas al ocio.
[Retroyou r/c Paradise] es el reflejo de un sabado en las
carreras de coches de radio control. El clima es bueno y todo parece entrar dentro de la normalidad: donde se encuentran las coordenadas modificadas y que
ocurrió el dia anterior en el folder [retroRC]?. Quizas el tutorial [retroYou r/C Me] nos de algunas respuestas y nos abra nuevos interrogantes, como por
ejemplo: como reorientar nuestro vehiculo_pajaro para poder encarar el negro horizonte{?}, en que punto la modificación pasó a ser retroceso{?} y tambien cuales son las estrategias mas convenientes para diseñar futuros prototipos{?}.-.::::".

 

 

Se os dois projectos anteriores podem parecer algo formalistas a um olhar distraído ou menos conhecedor das peculiaridades dos universos digitais, confundindo-se até na cabeça ingénua de alguns protagonistas da era analógica com o "video scratch" de Nam June Paik, o projecto de Fran Ilich, pelo contrário, tem a nítida aparência de uma obra neo-dadaísta de "agit-prop" saída inesperadamente dalgum estúdio norte-americano de cinema animado. Estou a lembrar-me do Road Runner criado por Chuck Jones em 1948... Apesar do humor que o caracteriza, este trabalho comporta um programa mais complexo de arte e política, orientado segundo as regras operacionais do "hacking": observação, estudo e compreensão não destrutiva... dos mundos invisíveis da emigração clandestina. Como escrevem a propósito Luis Humberto Rosales e Fran Ilich:


"En 1997 en Europa durante un evento llamado "documenta X", surgió la idea de crear un festival que consistiera en un campamento donde activistas y artistas manifestaran su descontento contra el trato a los migrantes "ilegales" en la frontera Alemania/Polonia. Este campamento se llamó "kein mensch ist illegal" (ningún humano es ilegal), llevándose a cabo como tal en el año de 1998. A pesar de varios intentos de las fuerzas policiacas por cancelar y sabotear el campamento, personalidades de la cibercultura, artistas, músicos,
activistas y simpatizantes de los derechos humanos realizaron marchas, pláticas, conciertos y talleres.

Han pasado ya tres años desde "documenta X", "kein mensch ist illegal" a crecido enormemente, ya no es un solo lugar, ahora campamentos son montados por diversas fronteras de la unión Europea con el antiguo bloque comunista, donde los migrantes son víctimas de grandes abusos y maltratos. Está por realizarse el tercer campamento este año, pero con una diferencia, "kein mensch ist illegal" se desborda hacia América, específicamente en la ciudad de Tijuana Mx, para muchos considerada como una de las fronteras más "físicas e intensas."

Dirigido por Laboratorios Cinemátik, grupo mixmedia promotor de la cibercultura y la música electrónica, "kein mensch ist illegal" toma el nombre de "Borderhack!", con la intención no de disolver la frontera, sino de hacerle un reverse engeneering, comprender su estructura y descubrir su funcionamiento."

O meu interesse pela web e pela chamada "media art", "new media" e "net art" começou no longínquo ano de 1994, quando, um pouco farto das circunvoluções pós-conceptuais e com alergias várias ao cinismo que recobre como um manto letal o processo de implosão das vanguardas pré-digitais, resolvi investigar o mundo da computação, o mundo das novas tecnologias e os novos temas que, a passo acelerado, convocam a curiosidade intelectual mais apurada: jogos electrónicos, Manga, Internet, Realidade Virtual, computação ubíqua, interactividade, engenharia genética, representação da violência, super-erotismo e imortalidade.

Foi o ano em que comecei uma experiência educativa chamado Aula do Risco, a partir da qual venho insistindo na utilidade de desenvolver estratégias de apropriação criativa das novas tecnologias. Sucederam-se, a partir daí, as ideias e os projectos: Museu Virtual (1995) e Parque Museu Virtual (apresentado e apoiado pelo MEIAC); S3A (mundo marítimo virtual povoado por dois agentes inteligentes {golfinhos}, apresentado na EXPO '98); Quadrum New Media (uma extensão experimental da histórica e vanguardista Galeria Quadrum, inaugurada em Lisboa em 22 de Novembro de 1973); Galeria Virtual do MEIAC (2000); conferências de arte e tecnologia, etc.

O projecto des-juego/de-game nasceu do entusiasmo que a obra dos JODI despertou em mim depois de convidá-los para o primeiro Seminário de Arte e Tecnologia de Badajós (2000). Tomei então contacto como um percurso artístico sólido pelos mundos ubíquos da computação. Há muito que a criatividade artística e o virtuosismo estético se encontram ao serviço da computação. Desde logo, na imaginação e desenho das interfaces amigáveis que hoje todos utilizamos para manipular os complexos sistemas operativos e aplicações informáticos; e ainda no extraordinário esforço de criatividade e inteligência computacional posto nos avanços vertiginosos da modulação e animação 3D, ou na criação dos jogos electrónicos. O que faltava, até ao aparecimento dos trabalhos dos JODI, de Tobias Bernstrup e Palle Torsson, de Eddo Stern, de Joan Leandre e de Fran Ilich, ou dos projectos online dos sites opensorcery.net/ e summonstosurrender.com/ era a própria consciência de uma tecno-arte ancorada no património histórico e crítico da própria arte contemporânea. A tal arte analítica que, a pouco e pouco, se foi transformando numa verdadeira meta-arte: quintessência crítica e humorista da própria autoconsciência cultural do homem ocidental (adquirida através de um longo processo de sofisticação subjectiva e intelectual).

Longe vão os tempos em que a tecnologia era uma espécie de refúgio para os maus artistas! Graças ao trabalho pioneiro de instituições como a Cal Arts, a School of Visual Arts, o ZKM, e o Walker Art Center, entre outras, a arte contemporânea iniciou finalmente uma nova e profunda transformação. Regorgitar os estilos e as décadas passadas numa inevitável espiral de degradação revivalista deixou de a aposta certa da arte actual...
Mas se tudo isto parece razoável e até inevitável, nem por isso deixam de persistir algumas resistências institucionais à plena aceitação dos novos média no território da chamada arte contemporânea. Um fractal invisível separa ainda os museus, as galerias de arte, os críticos e os artistas do século XX dos museus, galerias, críticos e artistas do século XXI. Esse fractal tem vários nomes: web, net, media art, cyber art, new media. Chamemos-lhe simplesmente o fractal da arte e tecnologia.

 

O projecto des-juego/de-game e o site que depois do ARCO continuará a sua viagem de reconhecimento e uma missão criativa bem determinada, dirige-se a todos os artistas infectados pelo vírus da digitalização, da comunicação em rede e da multiplicação fractal dos mundos possíveis. Lançámos mais uma nave na galáxia digital. May the Force be with us!

António Cerveira Pinto

 

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