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O séc. 21 será o século da globalização, da computação ubíqua, da vida artificial, da pornografia doce, da cultura online e do jogo.

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.../da globalização
O que agora passa diante de nós como a possibilidade da concretização de alguns dos mais longínquos sonhos da humanidade tem a sua origem próxima na agitação que caracterizou o século passado. Um século de guerras e revoluções; um século de ciência e tecnologia; um século que viu triunfar o capitalismo, a instituição democrática e a transparência mediática; um século moralista (apesar de toda a imoralidade); um século ideológica e culturalmente des-construtivo. Localmente medonho, tocante, macabro, hilariante, diabólico e inocente. Para esquecer... e para lembrar!

Desfizeram-se os tabus sexuais mais recalcados. A política e as nações tal como as conhecemos, reagrupadas apressadamente em blocos regionais, estão à beira do fim, enquanto acelera a deslocalização económica, social e cultural das sociedades e dos indivíduos. O planeta Terra é um eco-sistema com uma mente cada vez mais esperta e ciente das interdependências locais e globais. A democracia inteligente, pela qual deveremos lutar, tem por finalidade desalojar os velhos sistemas de poder a favor de uma autodisciplina distribuída, cujos controlos, cada vez mais complexos, serão entregues a uma superestrutura digital, submetida à lei e à opinião.

A evolução dominante do mundo contamina os sistemas sociais historicamente mais atrasados, mesmo quando cremos ser politicamente correcto preservar alguns dos santuários antropológicos ainda existentes no planeta: indios da Amazónia; vários povos africanos, como os pigmeus do Congo e os bosquimanos do Deserto do Calaari; os nómadas do deserto saariano; certas aldeias esquimós ou os aborígenes da Austrália. Este é seguramente um dos temas mais melindrosos da ética contemporânea. Deveremos confiar no trabalho dos antropólogos, sociólogos e psicólogos que dedicam a sua vida a este problema; e apoiá-los quando fazem chegar até nós as suas descrições e as suas causas.

Mas se estes santuários de humanidade podem ser cirurgicamente cuidados, em nome de uma filosofia menos etnocêntrica, o mesmo não poderemos dizer das imensas regiões do planeta, historicamente atrasadas, mas obviamente interessadas na espiral desenvolvimentista do capitalismo democrático, tecnológico e mediático. O Brasil, na América do Sul, Angola, Moçambique e a África do Sul, em África, a China, na Ásia, são as alavancas da modernização que transformará estes três continentes ao longo deste século. Depois deste "upgrade", o mundo nunca mais será o mesmo. E o que será, para nós que habitamos este princípio de milénio, não podemos sabê-lo agora.

 

O problema da globalização resume-se assim: os sistemas de poder pré-tecnológicos estão à beira da ruptura e correm o risco de sobreviverem ao longo dos próximos 50 anos como um fardo irracional da humanidade. A política actual é cara e ineficiente. E a globalização conduzida pelos actuais sistemas de poder (e de forças) tende a gerar conflitos insanáveis entre as perspectivas globais e locais sobre a distribuição do trabalho e da riqueza.
O programa da globalização terá que basear-se na limitação dos níveis regionais, nacionais e continentais de emissão de poluentes; na redistribuição da riqueza mundial; na descentralização tecnológica; na generalização dos sistemas de educação permanente; no fim da pena de morte em todo o mundo; no reforço dos poderes dos tribunais de direitos humanos; no reforço das liberdades e dos direitos e deveres democráticos das sociedades e dos indivíduos; em suma, na redacção de uma Constituição Universal dos Direitos Humanos, capaz de se sobrepor positivamente às constituições nacionais em matérias essenciais, como as que se referem ao direito à vida e à liberdade de circulação digital.

 

../da computação ubíqua

Apesar dos esforços continuados em direcção à simplicidade e à acessibilidade democrática e consumista das ferramentas tecnológicas, a evolução técnica e em particular a evolução dos nossos utensílios e próteses computacionais apontam indubitavelmente para uma complexidade exponencial da tecnosfera e para uma mais do que certa divisão desigual do trabalho e da riqueza. Esta tendência implica, entre outras coisas, a actualização dramática dos conceitos de educação mínima, básica e permanente, e um novo tipo de discussão política - baseada em pressupostos metodológicos e parâmetros de competência argumentativa inteiramente novos.
A aliança dos computadores aos sistemas de telecomunicações está a mudar a economia, a política e os nossos hábitos sociais e culturais, potenciando mais rapidamente do que se pensava a evolução dos dispositivos de representação interactiva à distância (telepresença), cuja progressão histórica une o primitivo Tan-tan à tecnologia UMTS, passando pelo telefone e pela Internet.


Mas a grande novidade introduzida pela World Wide Web, nomeadamente através dos telemóveis da 3 geração, é a possibilidade de conceber, produzir e aceder a pelo menos quatro estados de interactividade:

- o da interactividade viva: isto é, quando os humanos interagem entre si em tempo real; ou ainda quando interagem em tempo real com agentes computacionais inteligentes;

- o da interactividade passiva: isto é, quando passeamos pela web, por mero prazer ou buscando informação/representação específica;

- o da interactividade diferida passiva: isto é, quando definimos as nossas preferências relativamente a servidores de bases de dados, de correio, etc., encarregues de actualizarem periodicamente as mensagens e os conteúdos por nós escolhidos;

- e, finalmente, o da interactividade alienígena: isto é, sempre que configuramos um sistema de computação ubíqua da qual resulte uma ecologia artificial do género: o GPS do meu carro comunica com a minha casa que por sua vez comunica com o meu UMTS, que por sua vez decide comunicar comigo ou com determinados agentes inteligentes, para regular os meus equilíbrios profissionais, emocionais, logísticos, financeiros, legais, etc...

Estamos, como se vê, longe da representação renascentista baseada na ideologia do "ponto de vista" autorizado. E afastamo-nos também inexoravelmente das deflagrações cubistas do olhar, das fenomenologias da abstracção e da expressão, dos conceptualismos didascálicos, dos autismos anti-tecnológicos mais recentes e mesmo daquilo a que se convencionou chamar a "estética da recepção". Se alguma estética decorre da ubiquidade da tecnosfera ela será seguramente uma estética dinâmica, ou se se quiser, uma estética da interacção (também agonística...), e uma estética hiper-humana, no sentido em que terá que contar cada vez mais com o sentido de humor e os gostos dos novos actores inteligentes do ciber-espaço.

A atomização da inteligência artificial moldará, como ainda não somos capazes de prever, o futuro da humanidade e das suas representações.
Omde estaão pois as novas vanguardas artísticas? Não as procurem nos corredores corruptos da burocracia cultural do século XX, que entende tanto do que estamos falar como os académicos do século XIX entendiam de Impressionismo.

../da vida artificial

Os avanços das ciências, das tecnologias e da medicina levaram-nos à transgenia, à clonagem, à reconstrução cibernética parcial do corpo humano e ao design e cultura de tecidos e órgãos humanos artificiais. Isto é, à manipulação genética, à reprodução assexuada e à vida artificial. Os êxitos operacionais destas novidades científicas e tecnológicas são de tal modo avassaladores que nada ficará como dantes dentro dos próximos 50 anos. O panorama de uma vanguarda eugénica comandando um planeta de escravos do sexo reprodutivo vitimados pelas previsões malthusianas mais pessimistas é seguramente o sonho húmido de qualquer puritano de gema e uma saída teórica defensável para os ciclos de sobreprodução transgénica!

Dificilmente evitaremos que os radicais do eugenismo procedam nos próximos 5 ou 10 anos à divulgação de um clone humano, porventura já crescidinho, saudável e socialmente integrado. Provada então a amoralidade e até a inocência do procedimento, o mundo dividir-se-à inevitavelmente entre heterogenistas e eugenistas convictos. Mas a discussão, essa, já começou, entre os partidários algo indefesos da Natureza e os novos filósofos da transformação e da imortalidade egoístas. Num ponto ambos estarão de acordo: se é possível defender e prolongar a vida, então será legítimo fazê-lo. E todos nós estaremos interessados numa tal possibilidade, ainda que através de uma via inicialmente dolorosa. Até lá, mais de um aceitará submeter-se em vida ao processo de criogenização total ou parcial do corpo, tendo em vista a ressuscitação logo que as condições científicas e tecnológicas o aconselharem.

Outra das consequências da evolução das ciências e das tecnologias da vida artificial é a possibilidade de criar alimentos novos (e em particular alimentos cárnicos) geneticamente assistidos, levando-nos ao fim da era da domesticação de animais para abate e a moratórias cada vez mais drásticas sobre a pesca. O queijo e o iogurte figurarão então na história da alimentação humana como os grandes antepassados da nova cadeia de alimentos artificiais de origem animal. A carne clonada (e obviamente transgénica) chegará aos mercados alimentares sob a designação de alimento absolutamente pacífico. Quando acontecerá? Talvez depois de a BSE se tornar incontrolável, autorizando então o aplicação das soluções alternativas já experimentadas em ambientes controlados ou em fase de incubação tecno-científica. A alimentação vegetariana é e continuará a ser uma importante alternativa às estratégias cárnicas e neo-cárnicas.

Mas um dos temas mais controversos e estimulantes da vida artificial é o da possibilidade teórica de copiar dados das memórias humanas. A hipótese, ainda que remota, de transplantes e implantes de dados de e para cérebros humanos, daria certamente uma grande vantagem estratégica aos eugenistas radicais.

Os cenários da ficção científica são verosímeis, preocupantes e atraentes. Terão na criação artística actual e futura um impacto profundo e duradouro.

../da pornografia doce

Se repararmos na evolução populacional e moral das sociedades industriais e pós-industriais verificamos uma tendência implacável para a baixa da natalidade, para o envelhecimento da população e para a recessão da heterosexualidade estrita. A reprodução da espécie deixa lentamente de ser uma prioridade da própria espécie. As causas principais desta modificação filogenética são a diminuição drástica da economia agrícola de subsistência, o fim progressivo da economia familiar nas cidades, a proletarização da mulher e o alargamento dos períodos de educação escolar obrigatória. A família tradicional, matrimonial e reprodutiva, entrou em crise e nada parece poder evitar o agravamento da mesma. A percepção da família como um contrato cada vez mais temporário, do qual decorrem sucessivas reconstituições do agregado, dando origem a todo o género de originalidades jurídicas, meta-parentais e afectivas, origina, por outro lado, uma revisão progressiva dos tabus sexuais em que assentaram as ideologias e condutas humanas no decurso dos últimos milénios, bem como a redefinição cultural da função sexual e do erotismo. Também neste ponto, o século em que acabamos de entrar promete radicalizar algumas novidades comportamentais, de algum modo já anunciadas nas últimas décadas do século XX.

 

O crescimento e a aceitação social progressiva da homossexualidade masculina e feminina conduziu directamente à noção, hoje plenamente partilhada, de que a liberdade sexual é uma conquista razoável, e que, por conseguinte, o direito a uma sexualidade alternativa deve passar a constar dos direitos constitucionais do cidadão. À pergunta sobre os limites desta liberdade, ninguém parece, por agora, disposto a responder. Mas lá chegaremos, mais cedo do que se espera.

A primeira separação metodológica a operar neste debate é a diferença entre consentimento, exploração e coacção. Os dois últimos termos dizem respeito ao universo da moralidade e da legalidade democráticas, devendo ser tratados no mesmo plano político e jurídico de todas as causas relativas à integridade física, económica, social e moral dos sujeitos. No universo do consentimento, pelo contrário, reside a discussão interessante e fecunda que possamos vir a ter sobre a nova sexualidade. A primeira ideia a caminho de se tornar pacífica é a de que o sexo, quer dizer, a prática sexual, além de dever ser uma actividade livre, consentida e gratuita, pode ser ao mesmo tempo, embora num plano subjectivo e emocional distinto, objecto de actividades profissionais e económicas diversas. A polémica aqui resume-se ao debate sobre a necessidade da descriminalização, regulação e legalização da prostituição.

Numa era em que a sexualidade não-reprodutiva se tornou omnipresente ninguém consegue explicar porque consideramos normal esmagar os neurónios do adversário num combate de box, ou matar touros numa espectáculo público, ao mesmo tempo que se condena a prestação de serviços sexuais. A objecção da SIDA não vale, na medida em que atravessa todos os regimes da actividade sexual sem excepção.

Legalizada a homossexualidade masculina e feminina, assim como a bi-sexualidade, fica por clarificar quais as concordâncias e reservas mentais relativamente às chamadas perversões sexuais que estão para lá do coito anal e do coito oral, hetero ou homossexual. Que resposta daremos, por exemplo, aos tabus do incesto, da pedofilia, da zoofilia, da coprofilia e do sado-masoquismo, entre outros?

Antes mesmo que as sociedades pós-modernas estejam preparadas para discutir estas questões, a pornografia deflagrou como uma verdadeira bomba mediática diante de todos nós (adultos e crianças). Em Portugal, por exemplo, um canal com direito de transmissão comercial numa televisão participada pelo Estado exibe diariamente filmes pornográficos "hard-core". Tal como noutros países, em que este fenómeno também ocorre, e tal como sucede na Internet, os "sites" e canais pornográficas são os responsáveis "invisíveis" do sucesso comercial de muitos iniciativas empresariais "inocentes".
Assistimos, aliás, ao nascimento de inúmeras actividades profissionais dedicadas à eliminação dos tabus sexuais e à defesa declarada da criatividade erótica. Os ginásios de libertação sexual sucedem-se à moda dos consultórios eróticos já disseminados pela generalidade dos média. Mas tal como ocorre no universo do tráfico ilegal de drogas, os grandes "trusts" da exploração sexual tentarão manter as suas quotas de expoliação, militando nos labirintos oportunistas do poder, a favor do proibicionismo sexual.

A sobre-exposição erótica actual, de que a tendência para a progressiva aceitação social da pornografia é o melhor reflexo, coloca alguns desafios interessantes à arte contemporânea. O erotismo sempre foi uma prerrogativa das artes. Estas tinham, por assim dizer, uma autorização especial para lidar com a exposição dos corpos e a representação da líbido. Porém, com a predominância do Informalismo, da Abstracção e em geral do puritanismo iconoclasta na arte moderna, o artista vanguardista afastou-se daquele território privilegiado da representação poética e do erotismo, deixando-o entregue à fotografia, ao cinema e à televisão - lugares novos da representação, onde se acumulam os domínios linguísticos outrora bem delimitados, da imitação mais ou menos imaginária do mundo, da sua cópia aparente, da informação e da produção de estranheza...
A rejeição da líbido praticada pelas vanguardas puritanas vale o que vale uma tendência afinal breve e superficial da estética ocidental. O século em que acabamos de entrar vai assistir ao varrimento completo dalgumas das tendências mais implosivas da Abstracção e do Conceptualismo, ressuscitando pedagogicamente o saudável erotismo e a saudável anarquia do dadaísmo, de que o Situacionismo de Guy Débord foi a última grande manifestação. A arte que aí vem ressuscitará ainda a crítica radical e subjectiva do mundo, retomando a lógica inicialmente corrosiva da Arte Pop, protagonizada, entre outros, por Richard Hamilton e Öyvind Fahlström, artistas quase sempre subestimados pelas pseudo-histórias da arte do século XX.

A pornografia tem efeitos terapêuticos e pode mesmo ser tomada como uma modalidade de filosofia radical, centrada na carne, na percepção e nos fantasmas da imaginação. Como pudemos deixar de considerá-la um assunto sério da arte?

../da cultura online

As artes que ao longo do século passado souberam antecipar a própria lógica da globalização (aprendendo a lidar com as tecnologias e com a informação de massas), e as que, pelo contrário, se viram confinadas à entropia fenomenológica (refiro-me, claro está, ao suicídio de algumas "vanguardas"), têm pela frente um mesmo e único caminho de salvação: o caminho da interactividade digital.
Assim, e por mais insípida que hoje pareça alguma da "net art", uma coisa é certa: tudo o que de novo este século trouxer à arte contemporânea terá o seu vórtice no interior das redes digitais e desenvolver-se-à organicamente como uma das muitas dinâmicas características da tecnosfera. Por volta de 1993, este novo mundo, súmula de ocorrências e representações analógicas e digitais da realidade, começou a sua caminhada rizomática. Parecia, naquele ano já longínquo, que seria apenas uma réplica digital da velha ordem. Começamos agora a percebê-lo como uma autêntica "extensão" da realidade. Ou seja, como uma hiper-realidade.

 

A ordem iconológica pré-industrial, fudamentalmente clássica, medieval e renascentista, foi brutalmente constrangida pelo aparecimento da fotografia, do cinema e da televisão. O mundo obedecia até aí a um ponto de vista que era sobretudo o ponto de vista de uma autoridade transcendente, intocável, manipuladora e fantasista. A sociedade burguesa, no processo da sua própria libertação, e depois durante a fase de afirmação do seu programa ideológico, económico e social, pedia a liberdade, e pedia também a liberdade para o olhar. Precisava de uma certa dose de verdade para atingir os seus fins contra a velha ordem monárquica e clerical. Alguns pintores, como Goya, Manet e Courbet, souberam intuir esta necessidade, instaurando as bases do Realismo moderno que viria a influenciar toda a figuração objectiva do século XX. Como seria inevitável, esta tendência estética acolheu com optimismo as descobertas de Daguerre e da geração que o acompanhou no aperfeiçoamento da fotografia. A imprensa e a possibilidade intrínseca de imprimir ilustrações em largas tiragens culminam a anunciada libertação das artes do domínio da fantasia; em nome do republicanismo burguês, da Razão e dessa nova categoria social a que se passou a chamar Povo, com P maiúsculo. A objectividade fotográfica e os jornais tinham, porém, demasiada importância para continuarem sob a égide das Artes e das Letras. O jornalismo tornou-se, pois, inevitável; e com ele, a doce manipulação democrática das nossas consciências. Associadas aos novos meios de comunicação social de massas, as tecnologias da imprensa, da fotografia, e depois do cinema e da televisão dependiam de grandes investimentos para a sua rápida evolução (induzida pela luta comercial cada vez mais agressiva entre os empreendedores da nova ordem social). O artista ao serviço do novo poder da comunicação entrou imediatamente num processo de proletarização galopante. E quando escapou à proletarização, foi para se estabelecer como artista comercial, provedor de imagens e textos por medida a uma clientela pouco tolerante e pouco educada. Habituou-se lentamente aos editores autorizados a podar as suas imagens e as suas letras em nome da prevalência dos critérios de percepção, legibilidade e boa digestão conceptual. Em suma, deixou de ser considerado um mensageiro de Deus e da Beleza. A banalidade impôs-se como regime predominante, na ilustração e na crónica. Percebe-se, enfim, como era inevitável a cisão entre os criadores integrados e os que, recusando a integração, acabariam por se tornar nessa espécie de génios apocalípticos que tão bem caracterizou a arte moderna e contemporânea. Se o reino da objectividade fora usurpado em nome da verdade e do Povo pela burguesia triunfante, restava a quem não estivesse disposto a submeter-se ao novo regime de manipulação iconológica, aproximar-se das heterodoxias e dos utopismos ideológicos que, um pouco por todo o lado, começavam a desmistificar a nova ordem burguesa. Por essa via ganhou força a ideia de uma arte pela arte, quer dizer, de uma arte cuja manifestação fosse única e exclusivamente resultado de um acto desinteressado, livre e espontâneo "da" Criação. A partir deste confronto, e porventura até hoje, a arte ocidental transfigurou-se numa voz crítica e numa imagem corrosiva da realidade. Pela impossibilidade de competir com os poderosos meios de propaganda e comunicação gerados pelos poderes económicos e políticos, acabou por enveredar por uma de duas vias isolacionistas: a via da desfiguração neurótica do mundo, e a via da abstracção (que é também uma forma de desfiguração...). Expressionismo, Cubismo e Neo-Plasticismo são bem a evidência da enorme propensão analítica que marcou o essencial da arte do século XX. Os protagonistas iniciais desta retirada estratégica foram pintores como Monet, Cézanne, Matisse, Van Gogh, Picasso, Klimt e Mondrian. A ironia, porém, reside no facto de tal retirada ter acabado por ajustar-se perfeitamente à lógica da alienação e à lógica da separação burguesas sobre as quais assentaram as condições da sua própria reprodução alargada como modelo de crescimento destrutivo. Isoladas nas torres de marfim da metafísica - fenomenológica e psicodramática -, as vanguardas da arte moderna e contemporânea viram estiolar a sua energia num segundo confronto que, como o primeiro, vieram a perder: o confronto com os conhecimentos disciplinares entretanto autonomizados. Para onde quer que se virassem em matéria de especulação (filosófica, metafísica, psicológica, política,..) as suas proclamações esbarravam com um qualquer domínio epistemológico já constituído, mais competente e informado do que a suposta clarividência estética. Neste longo caminho de exaustão disciplinar, a arte do século XX acabaria por se deixar reduzir a uma matéria opaca e intraduzível, cujo valor de uso foi sendo progressivamente desfigurado em nome da usura e da prevalência dos valores da troca especulativa, do exibicionismo estatutário e da lavagem de capitais. A lógica do Capitalismo domina o mundo. E por conseguinte permanecemos todos separados uns dos outros - em nome da eficácia do sistema. Não se trata de especular sobre a possibilidade de os artistas regressarem a casa como o filho pródigo regressou. Mas sim de retomar algumas metodologias agressivas das vanguardas históricas do século XX (como o Dadaísmo, o Construtivismo, o Concretismo e o Movimento Situacionista) para relançar novas estratégias de guerrilha simbólica contra a eterna falta de imaginação e brutalidade poética dos agentes do Capitalismo. E aqui, o ponto interessante é o que decorre das virtualidades intrínsecas da tecnosfera, cujo uso supõe o domínio prévio dos seus mecanismos e regras. Ao contrário dos pintores que voltaram as costas à fotografia, devemos imitar o entusiasmo com que os construtivistas, por volta de 1917, agarraram os novos tempos. O sonho construtivista não durou mais do que as fantasias e as ilusões bolcheviques. Mas ainda assim permanece na memória das artes como um dos raros momentos do século XX em que a sensibilidade, a comunicação e a técnica foram capazes de produzir uma simbiose única de criatividade e sentido social. Nem manipulação, nem autismo. Simplesmente a festa de uma grande utopia! O mundo web é uma galáxia digital em expansão. Os motores de busca só alcançam 25% da sua extensão em cada pesquisa realizada. Ainda assim, as respostas às nossas perguntas afluem de forma avassaladora. Temos que disciplinar os nossos sistemas de navegação? Poderemos, todavia, agir fora de uma comunidade particular de interesses? E se agirmos apenas no interior de um número limitado de comunidades virtuais, teremos alguma noção da zona do universo que estamos a explorar? A nossa nave (de-game.org/) tem uma missão específica: atrair e ser atraída por tudo o que estiver relacionado com o conhecimento, a crítica, a criação e a divulgação de jogos electrónicos, e ainda com as relações de apropriação e desvio introduzidas neste domínio pelos artistas, venham eles donde vierem. É um princípio de acção e um método de análise, apresentado no contexto desta iniciativa como um desafio.

../e do jogo

O tempo disponível nas sociedades afluentes será ocupado, numa fracção muito relevante, pelas actividades agonísticas. Os jogos electrónicos, especialmente quando partilhados na Internet, geram cadeias de solidariedade agonística muito fortes. Enquanto os espectadores de televisão assistem a jogos ou corridas de automóveis, os jogadores de Playstation e os internautas que disputam torneios de Quake na Internet tomam efectivamente parte nos jogos. Os simuladores, cada vez mais sofisticados e realistas, levam os jogadores a viverem experiências de total imersão fenomenológica. Por outro lado, nos jogos de estratégia, do tipo Summons to Surrender, os jogadores podem viver uma vida paralela durante meses ou anos. À medida que as modelações, as animações e a inteligência dos protagonistas digitais se vão tornando mais sofisticadas, maior é a empatia estabelecida entre o jogador e esses actores. O grau crescente de complexidade dos mundos, dos cenários operacionais e dos actores virtuais torna a experiênia de jogo cada vez mais interactiva. Não apenas a "performance" física, mas também a cresente importância da caracterização psicológica e biográfica dos jogadores digitais contribui para a sua progressiva integração social no universo individual dos jogadores humanos. Modificar as texturas destes jogos, vestir e despir os respectivos heróis e heroínas, alterar o sistema de armas disponível, etc., são algumas das práticas intrusivas (autorizadas ou não pelos produtores dos jogos) actualmente muito em voga entre as comunidades de jogadores.

Este intenso dinamismo tecno-cultural, injectado no mundo pelos criadores e geradores cibernéticos das novas paisagens e narrativas virtuais, tem despertado a curiosidade de um número crescente de artistas, que vêm neste frenesim uma excelente janela de oportunidades para as suas incursões desviantes.

António Cerveira Pinto

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